A aprovação da Lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo em Portugal apenas peca por ser tardia e limitada, uma vez que não inclui a possibilidade de adopção. Acredito e defendo que os casais homossexuais têm tanto direito a formar uma família como qualquer outro casal.
Por muito delicado que o assunto possa ser, devemos olhar para ele com sentido prático e pensar que existem em Portugal milhares de casais heterossexuais completamente disfuncionais, com problemas de toxicodependência, alcoolismo, violência doméstica e que todos os dias muitas crianças são expostas a todo o tipo de atentados que ameaçam e muitas vezes prejudicam irreversivelmente o seu processo de crescimento e a sua formação enquanto seres humanos equilibrados e capacitados. Não será pior assistir a agressões diárias no seio familiar, ser vítima de abusos de todos os tipos, do que viver num agregado familiar com dois pais ou duas mães que podem dar a uma criança o amor, o equilíbrio e a educação de que é merecedora?
Existirá sempre quem aponte o dedo, quem fale por entre dentes ou quem esboce um esgar de desprezo. Mas tudo é fácil de combater com vontade e perseverança.
A tacanhez, a pobreza de espírito, a imbecilidade e a necessidade irracional de descriminar e excluir o que é diferente, continuará a grassar nas mentes de alguns portugueses enquanto este país existir. Continuará a existir preconceito contra homossexuais, contra ex-reclusos, contra toxicodependentes, contra imigrantes, contra todos os que por um motivo ou por outro constituem uma minoria. Tenho pena.
Esta Lei abre uma pequena janela de liberdade quando todos merecíamos que se escancarassem portas. O casamento é um direito das pessoas livres, é um direito tão legítimo como poder ir ao supermercado ou ao cinema e a homossexualidade é uma escolha como outra qualquer que fazemos ao longo das nossas vidas e não um crime ou uma doença como muita gente ainda pensa. Fico aliviada que esta questão não tenha sido levada a Referendo como reivindicavam os autores da famosa petição entregue pela "Plataforma Cidadania e Casamento". A referida petição tresandava a preconceito e a dogmas católicos, tudo muito bem camuflado por uma boa dose de hipocrisia e felizmente ficou-se pelo papel. Seria vergonhoso ver um direito essencial atirado para espaços de Direito de Antena, com despiques entre beatas bafientas a pregar contra a indecência e drag queens de plumas e lantejoulas de bandeira gay pride em riste.
Todos sabemos que nestas ocasiões os ânimos se exaltam e os extremos se tocam. Seria desnecessário. Como foi desnecessária e ridícula a consulta popular sobre a interrupção voluntária da gravidez que a meu ver diz respeito apenas à esfera íntima da mulher ou quanto muito do casal. Gastou-se papel. O povo foi às urnas. A lei foi aprovada (e ainda bem).
A Plataforma Cidadania e Casamento contava com o preconceito enraizado nos Portugueses por séculos de asfixia católica e a Igreja, que prega a igualdade entre os homens, a solidariedade, a criação da família como acto de amor, continua a pautar-se pela hipocrisia e continua a ignorar que os tempos são de mudança e que o amor não escolhe sexos, assim como não escolhe idades, raças ou credos! Não sou apologista do casamento mas aplaudo esta lei por dar a todos o direito de escolha e por ser um passo na direcção certa.
A discriminação e o preconceito não acabam por um apresentador de TV apresentar o "companheiro" nas páginas de uma revista cor-de-rosa, ou por existir um Festival de Cinema Gay e Lésbico ou por ser possível a um casal gay casar numa qualquer Conservatória do Registo Civil. Ainda há muito caminho a percorrer. É tempo de se abrirem fronteiras no pensamento das pessoas, de desbravar horizontes! É tempo de Portugal crescer dentro de si mesmo e empurrar para o passado tudo aquilo que nos torna pequenos!
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