quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

# 3 - Sobre o Partido Nacional Renovador


Nas últimas Eleições Legislativas o Partido Nacional Renovador obteve quarenta votos no Concelho de Grândola (a Vila Morena)... quarenta! Quarenta pessoas numa terra que é símbolo do 25 de Abril acharam que o PNR seria a melhor opção para governar o país, depois do descalabro chamado Sócrates. É triste.
Entristece-me a memória curta dos portugueses e a sua ingenuidade que quase sempre roça a burrice. O programa do dito Partido tem tantos absurdos que não se compreende como é que alguém em pleno século XXI o defende e apoia. O Nacionalismo e a Extrema Direita andam de braços dados e ganham força quando as massas populares se fragilizam em momentos difíceis. Foi assim que Hitler, Salazar, Franco e Mussolini subiram ao poder numa Europa devastada pela Primeira Guerra e pela Crise que começou no final da década de 20 e se estendeu pela década de 30 do Século passado. Os tiranos sempre se aproveitaram das fraquezas dos outros para se imporem e se assumirem como salvadores da Pátria mas cedo mostraram a sua verdadeira natureza. Guerra, fome, perseguições, campos de concentração... milhões de mortos... em nome de quê? Em nome do poder e de um nacionalismo doentio que ia contra todos os princípios fundamentais de liberdade do ser humano.
O Nacionalismo enquanto teoria política extremista é um absurdo. Eu sou nacionalista, gosto de Portugal e tenho orgulho em ser Portuguesa mas não compreendo como é que há pessoas que se manifestam contra os imigrantes que recebemos no nosso país. Quantos milhares de Portugueses há por esse mundo afora? Quantas vezes nos revoltámos quando um compatriota nosso é assassinado como aconteceu tantas vezes na África do Sul? Quantas vezes nos indignámos quando vemos como os franceses ou os alemães nos tratam como europeus de segunda? Dá que pensar não dá?
Provavelmente alguns dos militantes deste Partido são filhos ou netos de emigrantes mas agora acham que as pessoas que vêm para Portugal em busca de uma vida melhor não têm esse direito. Acham que são todos delinquentes e que ocupam o lugar de portugueses no mercado de trabalho. Ai é? Não. A maior parte dos portugueses não quer fazer limpezas ou trabalhar nas obras ou varrer ruas ou trabalhar em restaurantes de fast food que pagam o salário mínimo e exploram os empregados até ao tutano. É isso que os portugueses emigrantes fazem nos Estados Unidos e em França e no Luxemburgo, trabalham! Trabalham muito para poderem alugar um Mercedes para vir em Agosto espatifá-lo nas curvas das aldeias transmontanas... Enfim, mas isso agora não vem ao caso. Importa dizer que não devemos atirar pedras para o ar porque corremos o risco que nos caiam na cabeça.
Defender Portugal sim, mas respeitando a liberdade dos outros e o direito de cada ser humano tem a procurar uma vida melhor.
Umas semanas antes das Eleições, visitei os sites dos vários Partidos e li o programa de cada um. Li artigos, reportagens e vi vídeos da campanha de cada um.
Faço-o sempre porque gosto de pensar sobre as coisas e não aceitar apenas o que me impingem. No site do PNR descobri um vídeo em que vários militantes ou simpatizantes falavam sobre os valores defendidos pelo Partido e no meio de tantos impropérios uma senhora saltou-me à vista. Uma senhora que aparentava uns sessenta anos disse algo do género: "Quando houve o 25 de Abril eu quase deixei de gostar do meu país. Ainda bem que existe o PNR!"
Como é possível? Sessenta anos... alguém que viveu o pleno da Ditadura em Portugal, que viu as vozes de milhares de portugueses calarem-se perante o medo, que testemunhou o terror da PIDE, as prisões arbitrárias, que viu o povo que se amontoava em filas por meio litro de azeite ou umas gramas de toucinho salgado.
Esta senhora provavelmente pertencia a uma classe social de "sangue azul" que se alimentava do Estado como um bácoro gordo e lambão e se estava marimbando para o populacho. Sempre foi assim, sempre será.
E é assim porque o povo português deixa. O povo passa fome mas vai para os Comícios de bandeira em punho dar vivas à classe política incompetente que nos governa. O povo português viveu quarenta anos agrilhoado por um regime político castrador de todas as liberdades e agora vota num Partido que defende exactamente o mesmo que o Senhor Doutor Oliveira Salazar (que foi eleito pelos portugueses como o "maior português de sempre" num programa da RTP.)
Sem palavras.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

# 2 - Sobre a dieta

Se a minha dieta funcionar, pode ser que, se alguma vez me casar, não seja eu a carregar o noivo ao colo ao entrar na suite nupcial e sim o contrário.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

# 1 - Sobre a aprovação da Lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

A aprovação da Lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo em Portugal apenas peca por ser tardia e limitada, uma vez que não inclui a possibilidade de adopção. Acredito e defendo que os casais homossexuais têm tanto direito a formar uma família como qualquer outro casal.
Por muito delicado que o assunto possa ser, devemos olhar para ele com sentido prático e pensar que existem em Portugal milhares de casais heterossexuais completamente disfuncionais, com problemas de toxicodependência, alcoolismo, violência doméstica e que todos os dias muitas crianças são expostas a todo o tipo de atentados que ameaçam e muitas vezes prejudicam irreversivelmente o seu processo de crescimento e a sua formação enquanto seres humanos equilibrados e capacitados. Não será pior assistir a agressões diárias no seio familiar, ser vítima de abusos de todos os tipos, do que viver num agregado familiar com dois pais ou duas mães que podem dar a uma criança o amor, o equilíbrio e a educação de que é merecedora?
Existirá sempre quem aponte o dedo, quem fale por entre dentes ou quem esboce um esgar de desprezo. Mas tudo é fácil de combater com vontade e perseverança.
A tacanhez, a pobreza de espírito, a imbecilidade e a necessidade irracional de descriminar e excluir o que é diferente, continuará a grassar nas mentes de alguns portugueses enquanto este país existir. Continuará a existir preconceito contra homossexuais, contra ex-reclusos, contra toxicodependentes, contra imigrantes, contra todos os que por um motivo ou por outro constituem uma minoria. Tenho pena.
Esta Lei abre uma pequena janela de liberdade quando todos merecíamos que se escancarassem portas. O casamento é um direito das pessoas livres, é um direito tão legítimo como poder ir ao supermercado ou ao cinema e a homossexualidade é uma escolha como outra qualquer que fazemos ao longo das nossas vidas e não um crime ou uma doença como muita gente ainda pensa. Fico aliviada que esta questão não tenha sido levada a Referendo como reivindicavam os autores da famosa petição entregue pela "Plataforma Cidadania e Casamento". A referida petição tresandava a preconceito e a dogmas católicos, tudo muito bem camuflado por uma boa dose de hipocrisia e felizmente ficou-se pelo papel. Seria vergonhoso ver um direito essencial atirado para espaços de Direito de Antena, com despiques entre beatas bafientas a pregar contra a indecência e drag queens de plumas e lantejoulas de bandeira gay pride em riste.
Todos sabemos que nestas ocasiões os ânimos se exaltam e os extremos se tocam. Seria desnecessário. Como foi desnecessária e ridícula a consulta popular sobre a interrupção voluntária da gravidez que a meu ver diz respeito apenas à esfera íntima da mulher ou quanto muito do casal. Gastou-se papel. O povo foi às urnas. A lei foi aprovada (e ainda bem).
A Plataforma Cidadania e Casamento contava com o preconceito enraizado nos Portugueses por séculos de asfixia católica e a Igreja, que prega a igualdade entre os homens, a solidariedade, a criação da família como acto de amor, continua a pautar-se pela hipocrisia e continua a ignorar que os tempos são de mudança e que o amor não escolhe sexos, assim como não escolhe idades, raças ou credos! Não sou apologista do casamento mas aplaudo esta lei por dar a todos o direito de escolha e por ser um passo na direcção certa.
A discriminação e o preconceito não acabam por um apresentador de TV apresentar o "companheiro" nas páginas de uma revista cor-de-rosa, ou por existir um Festival de Cinema Gay e Lésbico ou por ser possível a um casal gay casar numa qualquer Conservatória do Registo Civil. Ainda há muito caminho a percorrer. É tempo de se abrirem fronteiras no pensamento das pessoas, de desbravar horizontes! É tempo de Portugal crescer dentro de si mesmo e empurrar para o passado tudo aquilo que nos torna pequenos!